quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Estresse na infância - choro excessivo e cortisol


Estresse na infância - choro excessivo e cortisol

O que causa estresse na infância? Pesquisas de laboratório e psicológicas em bebês animais e humanos mostram que dor, reações de sensibilidade a leites artificiais ou alimentos que passam pelo leite materno, abuso físico e negligência extrema e outros causam estresse.

A separação a curto prazo da mãe ocasiona níveis elevados de cortisol em bebês, indicando estresse.1,2 Na verdade, após um dia inteiro de separação, bebês ratos já mostram alteração da organização química de receptores cerebrais.3 Um estudo similar em ratos revelou que uma dia de separação da mãe duplicou o número de mortes celulares no cérebro.4

Estudos em animais demonstraram que isolamento da mãe, pouco estímulo tático e recusa ou demora em amamentar quando o bebê o pede pode ter consequências bioquímicas permanentes no cérebro. A correlação dessas pesquisas com pesquisas comportamentais em humanos sugere quais eventos que levam ao estresse crônico com consequencias permanentes:
• Permitindo que o bebê chore sem consolo, atenção ou afeição dos pais
• Não amamentando quando o bebê está com fome
• Não oferecendo conforto quando o bebê está perturbado, estressado, angustiado
• Limitando o contato corporal durante mamadas, durante o dia, e durante situações estressantes à noite
• Baixos níveis de atenção, estimulação, conversação e brincadeiras
Quando os fatos acima ocorrem regularmente, pode-se ter liberação precoce crônica de altos níveis de estresse, bem como baixa expressão de hormônios favoráveis.

Todas as práticas que tem sido promovidas durante o século passado na forma de amamentação com horários rígidos, “não mal acostume essa criança”, desmames precoces por uso de mamadeira no início de vida do bebê, e separação física do bebê durante o dia e noite.

Enquanto é evidente que a constituição genética e experiências de vida influenciam o comportamento, tem sido demonstrado que experiências na primeira infância tem os efeitos mais fortes e persistentes na regulação de hormônios, respostas ao estresse e comportamento no adulto.5 Pesquisas mostram que altos níveis de contato físico precoce e resposta maternal constante ao bebê pode até diminuir a predisposição genética para reações extremas ao estresse.6

A pesquisadora de Biologia e Psicologia Megan Gunnar e colaboradores fizeram estudos em bebês que confirmaram os resultados dos estudos em animais. Em seu trabalho, bebês de 4 meses que receberam cuidado sendo regularmente atendidos quando choravam produziram menos cortisol. Também, bebês de 18 meses classificados como tendo apego inseguro (que tinham recebido menor nível de resposta dos cuidadores) revelaram altos níveis de hormônios de estresse.7

Essas mesmas crianças continuaram a mostrar níveis elevados de cortisol com 2 anos e pareciam mais medrosas e tímidas. Novamente, essas crianças são as que foram classificadas como tendo baixos níveis de resposta dos cuidadores.8 Outras investigações confirmaram esses achados.9 Dr. Gunnar reporta que os níves de estresse experimentado na primeira infância moldam permanentemente as respostas ao estresse no cérebro, que então afetam memória, atenção e emoção.10

Cortisol e Estresse

O eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenocortical), a ponte entre orgãos específicos do cérebro e glândulas adrenais, é o regulador chefe de reações de estresse. Enquanto vários hormônios desencadeiam reações de estresse diretamente, frequentemente em conjunção com outros e com alguns desempenhando mais de um papel, o cortisol é provavelmente o mais típico dos hormônios de estresse, o mais estudado. Durante estresse, hormônios são liberados sob controle do eixo HPA para ajudar o corpo a suportá-lo. O cortisol pode elevar a pressão arterial e cardíaca, o açúcar no sangue, e interromper funções digestivas e renais.

As respostas à noradrenalina e ao cortisol são conectadas. Ambos são liberados em reação a excitação, exercícios e estresse, ambos causam aumento do pulso cardiaco, açúcar no sangue e atividade cerebral. Discute-se como aumentos de noradrenalina durante o carinho e brincadeiras podem promover aprendizado em bebês (você talvez se lembre como de vez em quando aprendeu melhor sob estresse e excitação do último minuto de estudo), como também apego (desde que apego também acontece em crianças e adultos quando estão compartilhando atividades excitantes). Entretanto, exposição crônica a estresse "negativo" causa eleveções crônicas de cortisol, ao invés de aumentos que teriam efeitos positivos.

O aumento crônico de cortisol em bebês e os ajustes hormonais e funcionais que ocorrem ao mesmo tempo foram associados com mudanças cerebrais permanentes que levam a respostas elevadas ao estresse durante a vida toda, como pressão arterial e cardíaca alta.11 Essa resposta de aumento começa bem cedo na vida. Até bebês que são regularmente exposto a estresse já demonstram maiores níveis de liberação de cortisol e elevações mais constantes de cortisol em resposta a situações estressantes.12

Elevações ocasionais de cortisol durante o dia podem ser benéficas, mas um nível alto continuo de hormônio de estresse na infância que vem de um ambiente estressante são associados com efeitos negativos permanentes no desenvolvimento cerebral.

Algumas teorias evolucionárias vão além e sugerem que respostas elevadas ao estresse aparententemente levam a comportamentos agressivos e puberdade precoce, que serviriam para um propósito de ajuda a sobrevivência do indivíduo durante tempos duros como guerras.

Estudos mostram que bebês que recebem contato físico frequente tem menores níveis de cortisol,13 enquanto estudos psicológicos de apego revelam maiores níveis em crianças inseguras, desapegadas.14,15 Mulheres que amamentam também produzem menos hormônio do estresse do que mulheres que alimentam seus filhos com mamadeira.16

Resultados do Estresse no bebê

Se não tiver contato regular com o cuidador, o bebê não somente sofre de elevados níveis de hormônios do estresse, mas também recebe menos benefícios de ocitocina e outras influências bioquímicas positivas. O ambiente bioquímico imposto no cérebro de um bebê durante os estágios críticos de desenvolvimento afetam a anatomia e funcionamento do cérebro permanentemente.17 Um ambiente bioquímico ‘pobre’ resulta em habilidades emocionais, comportamentais e intelectuais menos desejáveis para o resto da vida da criança.

Como descrito, um cérebro desenvolvido num ambiente estressante reage exageradamente aos eventos e não controla bem os hormônios do estresse durante a vida, tendo níveis de cortisol e outros hormônios de estresse regularmente elevados. Quando adultos poderão demonstrar comportamento associados com alto risco de infarte e diabetes. Um estudo psiquiatrico mostrou que algumas consequências de má saúde em adultos que receberam maternagem restritiva durante infância– alta pressão arterial e altos níveis de cortisol – lembram bem os de adultos que perderam um pai ou mãe, ou filho.18 Os efeitos, entretanto, vão muito além da pressão arterial e habilidade de lidar com estresse.

O hipocampo, uma estrutura importante para o aprendizado e memória, é o local no cérebro onde desenvolvimento é afetado por estresse e níveis de hormônios do apego.

O nível de hormônios de estresse circulando num bebê afeta o número e tipos de receptores no hipocampo.19 Foi demonstrado que neurônios no hipocampo são destruídos como resultado de estresse crônico e níveis elevados de hormônio do estresse, produzindo déficits intelectuais como consequencia.20 Déficits de memória e aprendizado espacial foram demonstrados em ratos que sofreram de estresse prolongado na infância.21 Do mesmo modo, crianças com os menores níveis de habilidades mentais e motoras foram as que tiveram maiores níveis de cortisol no sangue.22

O desenvolvimento prematuro da puberdade também foi associado com maiores níveis de cortisol e outros indicadores de estresse.23 Esse estudo também mostrou que essas crianças tem mais depressão, mais problemas de comportamento, e menores indices de inteligência. Novamente, os estudos laboratoriais confirmam completamente os estudos de psicologia do apego. Além disso, puberdade precoce aumento o risco de desenvolver câncer.

Em indivíduos que sofrem de desordem de ansiedade, anorexia nervosa e depressão, a produção de cortisol é consistentemente muito alta.24 Secreção demasiada de hormônios do estresse também foram recentemente implicados em obesidade, doença de Alzheimer,25 e sintomas de velhice acelerada. 26 Estudos em animais demontraram sistema imune dos bebês funcionando pior em bebês sujeitos ao estresse de separação prolongada da mãe,27,28 o que coincide com aumento na incidência de doenças mostrados em crianças com menos apego.

Começos

Muita coisa já foi escrita sobre os primeiros momentos após o nascimento do bebê.

O bebê (se não está totalmente intoxicado por drogas usadas no trabalho de parto), recebeu hormônios durante o processo de parto e está super alerto por um curto período de tempo. Durantes esse tempo o ‘imprinting’ inicial acontece. Já familiar com as vozes dos pais, o bebê, que pode distinguir rostos de outros objetos e partes do corpo, olha bastante intensamente para os olhos dos pais, como se registrasse essas imagens para a vida. Ele reconhece o cheiro do liquido amniótico, que é principalmente o seu próprio, mas também de sua mãe. Essa programação importante no início de vida também guia sua boca a procurer e achar método físico de nutrição maternal, então ele é imediatamente atraído para o odor específico dos vasos de amamentação que agora substituem o cordão umbilical.

O recém nascido, que mal consegue manter sua temperatura corporal, encontra conforto e regulação da temperatura ideal em contato com o corpo morno de sua mãe. Conhecendo somente o ambiente seguro do útero de sua mãe, ele se sente confortável contra o corpo morno ou nos braços, e ele chorará alto, desconfortável e ansioso, se deixado em superfície lisa ou fria.

Com essa primeira experimentação de colostro com nutrição concentrada e rico em agentes de imunidade, e ouvindo sons familiares do corpo da mãe (coração batendo e outros), logo cairá no sono- até suas batidas do coração e respiração são regulados pelos ritmos dos de sua mãe. Quando dorme, sua respiração e primeiras mamadas ajudam a estabelecer um flora intestinal saudável, providenciando defesa contra micróbios ao redor.

Embora nem todo bebê tenha iniciado a vida dessa maneira, essa é a primeira chance para apego e a primeira escolha feita que tem a ver com sua saúde. Há uma longa vida à frente para pais e o bebê, e há muitas direções que podem ser tomadas. Enquanto a criança nasce com potencial específico, pela natureza, o estilo de maternagem que recebe (a criação), irá influenciar bastante a possibilidade dessas habilidades naturais virem a serem desenvolvidas, muito para benefício ou perda da criança, família e sociedade.

O apego é importante
Pesquisas sobre os fatores bioquímicos influenciados por métodos de cuidados bebês demonstram que ao cuidar dos filhos respondendo sempre às suas necessidades emocionais o corpo produz substâncias que ajudam a gerar pais amorosos, efetivos e duráveis para o bebê, e bebês que são fortemente apegados aos pais. Conforme o tempo essas ligações amadurecem em amor e respeito.

Sem dúvida essa química organiza permanentemente o cérebro do bebê para comportamentos positivos e desenvolvimento de apegos fortes e duradouros. Entretanto, a maior lição desses estudos é que, enquanto a natureza tem um plano muito bom, a falha ao segui-lo pode guiar em resultados indesejáveis. Em outras palavras, quando os pais instintivamente curtem uma proximidade com seus bebês, amamentando-os em livre demanda, respondendo rapidamente seu choro, seus desejos e necessidades (que são os mesmos num bebê), a natureza se designa a desenvolver adutlos sensíveis e responsáveis.

Não dar atenção ao bebê faz com que mensageiros químicos vitais diminuam rapidamente, e como resultado ligações fracas são formadas e a maternagem se torna mais árdua. Ao mesmo tempo, o bebê manifesta os efeitos do estresse. Ainda mais, reações de estresse e outros comportamentos na criança e adulto que se tornará são permanentemente alterados de maneiras infelizes. Aspectos do intelecto e saúde podem sofrer também.

O sistema hormonal humano inato que recompensa por contato social e físico consistente, próximo e amoroso entre pai e bebê, e as consequências incríveis desse contato íntimo, aliado as pesquisas psicológicas sobre apego, nos dão evidências fortíssimas de que o plano intencionado pela natureza de cuidados com o bebê são de contato contínuo e íntimo.

Uma vez ouvi um pediatra criticar uma mãe sobre o jeito que seu filho pequeno se abraçou nela e pediu-lhe que ficasse em seu colo quando tirava sangue dele: ”Tudo começa no primeiro dia quando você o pega no colo quando ele chora.", disse ele.

Minha única resposta a isso é, "Sim, começa."

Por Linda F. Palmer, D.C.
http://www.babyreference.com/Estresseinfancy.htm
Tradução: Andréia K. Mortesen

Notas de rodapé:
1. M.L. Laudenslager et al., "Total cortisol, free cortisol, and growth hormone associated with brief social separation experiences in young macaques," Dev Psychobiol 28, no. 4 (May 1995): 199–211.
2. P. Rosenfeld et al., "Maternal regulation of the adrenocortical response in preweanling rats," Physiol Behav 50, no. 4 (Oct 1991): 661–71.
3. H.J. van Oers et al., "Maternal deprivation effect on the bebê’s neural estresse markers is reversed by tactile stimulation and feeding but not by suppressing corticosterone," J Neurosci 18, no. 23 (Dec 1, 1998): 10171–9.
4. M.A. Smith of Dupont Merck Research Labs as reported by JohnTravis of Science News 152 (Nov 8, 1997): 298.
5. E.R. de Kloet et al., "Brain–corticosteroid hormone dialogue: slow and persistent," Cell Mol Neurobiol (Netherlands) 16, no. 3 (Jun 1996): 345–56.
6. H. Anisman et al., "Do early-life events permanently alter behavioral and hormonal responses to estresseors?" Int J Dev Neurosci 16, no. 3–4 (Jun–Jul 1998): 149–64.
7. M. Nachmias et al., "Behavioral inhibition and estresse reactivity: the moderating role of attachment security," Child Dev 67, no. 2 (Apr 1996): 508–22.
8. M.R. Gunnar et al., "Estresse reactivity and attachment security," Dev Psychobiol 29, no. 3 (Apr 1996): 191–204.
9. G. Spangler and K.E. Grossmann, "Biobehavioral organization in securely and insecurely attached bebês," Child Dev 64, no. 5 (Oct 1993): 1439–50.
10. M.R. Gunnar, "Quality of care and buffering of neuroendocrine estresse reactions: potential effects on the developing human brain," Prev Med 27, no. 2 (Mar–Apr 1998): 208–11.
11. M.S. Oitzl et al., "Continuous blockade of brain glucocorticoid receptors facilitates spatial learning and memory in rats," Eur J Neurosci (Netherlands) 10, no. 12 (Dec 1998): 3759–66.
12. E.E. Gilles et al., "Abnormal corticosterone regulation in an immature rat model of continuous chronic estresse," Pediatr Neurol 15, no. 2 (Sep 1996): 114–9.
13. D. Liu et al., "Maternal care, hippocampal glucocorticoid receptors, and hypothalamic–pituitary–adrenal responses to estresse," Science (Canada) 277, no. 5332 (Sep 1997): 1659–62.
14. K. Lyons-Ruth, "Attachment relationships among children with aggressive behavior problems: the role of disorganized early attachment patterns," J Consult Clin Psychol 64, no. 1 (Feb 1996): 64–73.
15. L. Hertsgaard et al., "Adrenocortical responses to the strange situation in bebês with disorganized/disoriented attachment relationships," Child Dev 66, no. 4 (Aug 1995): 1100–6.
16. M. Altemus et al., "Suppression of hypothalamic–pituitary–adrenal axis responses to estresse in lactating women," J Clin Endocrinol Metab 80, no. 10 (Oct 1995): 2965–9.
17. C. Caldji et al., "Maternal care during infancy regulates the development of neural systems mediating the expression of fearfulness in the rat," Proc Natl Acad Sci (Canada) 95, no. 9 (Apr 1998): 5335–40.
18. L.J. Luecken, "Childhood attachment and loss experiences affect adult cardiovascular and cortisol function," Psychosom Med 60, no. 6 (Nov–Dec 1998): 765–72.
19. D.M. Vazquez et al., "Regulation of glucocorticoid and mineralcorticoid receptor mRNAs in the hippocampus of the maternal deprived bebê rat," Brain Res 731, no. 1–2 (Aug 1996): 79–90.
20. J. Raber, "Detrimental effects of chronic hypothalamic–pituitary–adrenal axis activation. From obesity to memory deficits," Mol Neurobiol 18, no. 1 (Aug 1998): 1–22.
21. H.J. Krugers et al., "Exposure to chronic psychosocial estresse and corticosterone in the rat: effects on spatial discrimination learning and hippocampal protein kinase Cgamma immunoreactivity," Hippocampus (Netherlands) 7, no. 4 (1997): 427–36.
22. M. Carlson and F. Earls, "Psychological and neuroendocrinological sequelae of early social deprivation in institutionalized children in Romania," Ann N Y Acad Sci 807 (Jan 15, 1997): 419–28.
24. E. Redei et al., "Corticotropin release-inhibiting factor is preprothyrotropin-releasing hormone-(178-199)," Endocrinology 136, no. 8 (Aug 1995): 3557–63.
25. J. Raber, "Detrimental effects of chronic hypothalamic–pituitary–adrenal axis activation. From obesity to memory deficits," Mol Neurobiol 18, no. 1 (Aug 1998): 1–22.
26. M. Deuschle et al., "Effects of major depression, aging and gender upon calculated diurnal free plasma cortisol concentrations: a reevaluation study," (Germany) Estresse 2, no. 4 (Jan 1999): 281–87.
27. C.L. Coe and C.M. Erickson, "Estresse decreases lymphocyte cytolytic activity in the young monkey even after blockade of steroid and opiate hormone receptors," Dev Psychobiol 30, no. 1 (Jan 1997): 1–10.
28. G.R. Lubach et al., "Effects of early rearing environment on immune responses of bebê rhesus monkeys," Brain Behav Immun 9, no. 1 (Mar 1995): 31–46.

Estresse na infância - choro excessivo e cortisol:
https://www.facebook.com/notes/solu%C3%A7%C3%B5es-para-noites-sem-choro/estresse-na-inf%C3%A2ncia-choro-excessivo-e-cortisol/283369621687454

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Quando o bebê nasce…


Quando o bebê nasce…

A gravidez chegou… as vezes sorrateira, de surpresa. As vezes planejada. Começamos essa viagem rumo à recepção de nosso querido bebê. Muitas vezes a ansiedade já toma conta logo no ínício… conto ou não conto para as pessoas que convivem comigo? E o meu chefe? O que vai pensar? Meu filho mais velho vai ficar com ciúmes? Vão me julgar inconsequente? Será que será saudável? Parto normal ou cesárea?
Todas essas dúvidas, e mais algumas centenas delas povoam nossamente durante o inebriante mergulho de nove meses em que estamos nos preparando para receber nosso bebê em nossos braços.
E imaginamos milhares de vezes este momento. O momento de olhar para seu rostinho, de pegá-lo, abraçá-lo, aninhá-lo… Um momento imaginado, vivido, sentido em toda sua extensão mesmo antes de acontecer.
E é para ser um momento especial. Um momento da família que se forma ou que aumenta.
A maioria de nós, não imagina a dinâmica de um parto, e por isso romantizamos o momento, vendo o bebê nascer e vir diretamente para nosso colo, sentir seu cheirinho, tocar sua pele macia… Eu pelo menos sempre imaginei este momento assim. Mas como a maioria das artimanhas que nosso imaginário cria, em muito mais do que 90% dos nascimentos este momento fica apenas no imaginário das mamães…
Por isso, uma mulher que vai atrás de informações baseadas em evidências científicas, tem condição de negociar com o pediatra antes do parto, o que ela deseja e o que não deseja de intervenções em seu bebê.
É claro que a maioria dos pediatras tem que seguir o protocolo dos hospitais. Protocolos ultrapassados, que realizam intervenções de rotina nos recém-nascidos (assim como nas gestantes) e os tratam todos iguais, sem respeitar as individualidades de cada momento de nascimento e de cada bebê.
Você conhece todas as intervenções que seu filho sofreu ou vai sofrer no hospital?
Sabe para que serve cada uma delas?
Sabe a indicação de cada uma?
Vou tentar colocar todas aqui. Se alguém souber de alguma coisa que não está aqui, ou quiser corrigir algo que eu escrevi, por favor nos escreva:mulheresempoderadas@yahoo.com.br
Manobra de Kristeller -  É quando o anestesista ou um enfermeiro, durante o período expulsivo empurra com força a barriga da mulher (o fundo do útero) para que o bebê “saia mais rápido”.
Essa manobra é proibida em alguns países e não é recomendada pela OMS, pois além de ser uma violência com mãe e bebê, pode prejudicar o assoalho pélvico, o períneo, causar inversão uterina, ruptura uterina, e uma série e complicações no parto e pós-parto, podendo inclusive causar a morte materna ou fetal.  NÃO É INDICADA em caso algum!

Vácuo Extrator
Forceps ou Vácuo Extrator –São instrumentos usados para ajudar na retirada do bebê, quando a mãe já está cansada e não consegue sozinha fazer o expulsivo.
Fórceps
Indicado apenas quando há evidência de sofrimento fetal por expulsivo muito prolongado. Entretanto há expulsivos demorados, que não há necessidade de uso de fórceps ou vácuo. Mudar de posição por exemplo, ajuda muito a saída do bebê. Entretanto, novamente com intuito de “apressar” o parto, é usado rotineiramente no Brasil.
Aspiração -  bebês nascidos de parto normal, que estejam bem, não precisam ser aspirados! Ao passar pelo canal de parto, os pulmõpes do bebê são massageados, provocando a expulsão natural dos líquidos.
Entretanto 100% dos bebês nascidos em hospital são aspirados com a sonda, como parte de protocolo hospitalar. A sonda é um tubo de plástico enorme que é introduzido até o estômago do bebê. É indicado para bebês que nascem de cesárea, justamente porque não recebem essa “massagem” durante a passagem pelo canal de parto.
Colírio de Nitrato de Prata – Outro protocolo ridículo. É um colírio que se pinga em 100% dos bebês nascidos em hospital como rotina. Na maioria dos casos causa conjuntivite química, que aparece apenas quando o bebê vai pra casa. A única indicação é para bebês que nascem de parto vaginal cuja mãe seja portadora de gonorréia – que geralmente é detectado no pré-natal né gente?
Então alguém me explica, pelo amor de Deus, porque mães saudáveis que tem seu filho via vaginal e porque bebês nascidos de cesárea também recebem esse colírio? Alguém aí já experimentou pingar uma gotinha do colírio pra ver o quanto arde?
 Vitamina K - A vitamina K via injeção na coxa é feita no berçário, mas pode tomada via oral que funciona do mesmo jeito. É importante pra prevenir hemorragias no bebê. Quando tomada via oral, deve ser repetida mais duas vezes depois que o bebê vai pra casa.
Tem outras intervenções mais leves, como medir o bebê por exemplo. O bebê que estava ali, enroladinho dentro da barriga, de repente é esticado, sem maiores cerimônias para ser medido. Custa esperar um ou dois dias?? Custa?? Ahhhhh depois de alguns dias o bebezinho vai crescer muito né??
 Dextro – exame de glicemia para bebês que são considerados grande! No hospital em que a Catharina nasceu, ela foi salva deste exame graças à neonatologista. Ela nasceu com 3,900 e o protocolo do hospital pregava que bebês que nascem acima de 3,700 devem ser picados para exame de glicemia a intervalos determinados pelo protocolo.
 Banho de luz – É indicado apenas quando o bebê nasce com icterícia (geralmente bebês prematurinhos) num grau muito alto. Uma icterícia leve pode (e deve) ser tratada com banho de sol pela manhã e com o próprio aleitamento materno. Não é necessário separar o bebê da mãe!
Separação e introdução de fórmulas – Na maioria dos hospitais em nosso país, os bebês assim que nascem dão um cheirinho na mamãe e já vão para o berçário para sofrerem todas as intervenções, banho, etc. A desculpa é sempre de que a mãe precisa descansar (realmente precisamos – mas é aí que o acompanhante entra, outra lei que não é cumprida) – O pior da separação, é a introdução de fórmulas enquanto os bebês estão no berçário, prejudicando o aleitamento materno e a saúde do bebê. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde enfatizam cada vez mais a importância do contato pele a pele assim que o bebê nasce, e a amamentação imediata. É importante informação e empoderamento para fazer valer esse direito de mãe e bebê.
Então mulheres, informem-se! Eu fico muito triste de saber que meus dois primeiros filhos passaram por muitas dessas intervenções desnecessariamente. Eu não tinha essas informações. Mas quando as tive, não permiti que minha caçula sofresse nenhuma delas!
Então quando eu ouço alguém falar que é muito caro pagar um parto humanizado, eu nem respondo. Eu também achava caro antes de ter minha própria experiência. HOJE eu sei que vale cada centavo!
Catharina nasceu no hospital sim, mas conseguimos fazer valer nosso direito. Contamos com uma equipe humanizada.

DO BLOG:

domingo, 9 de outubro de 2011

Parto domiciliar: refletindo sobre paradigmas

Parto domiciliar: refletindo sobre paradigmas - Parto - Guia do Bebê:
Dra. Melania Maria Ramos de Amorim

Parto domiciliar: refletindo sobre paradigmas

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro”
(Ricardo Herbert Jones)

Ana Paula Caldas, médica neonatologista, em parto domiciliar, imediatamente depois do nascimento de Lis - Foto: Ana Cristina Duarte
Ana Paula Caldas, médica neonatologista, em seu parto domiciliar, imediatamente depois do nascimento de Lis - Foto: Ana Cristina Duarte

Quando começamos a escrever esta coluna para o Guia do Bebê, em 2010, nosso primeiro artigo abordou um assunto que começava então a despertar o interesse da mídia brasileira: o parto domiciliar (1). Na oportunidade, revisamos as evidências científicas disponíveis e concluímos que o parto domiciliar, uma realidade frequente em outros países, como Holanda, Inglaterra e Canadá, representava uma alternativa segura para as gestantes de baixo risco, resultando em menor taxa de intervenções como episiotomia, analgesia, operação cesariana e parto instrumental (fórceps e vácuo-extrator), sem aumento do risco de complicações para mães e bebês (2-4). Destacamos a publicação, em 2009, de um grande estudo de coorte comparando mais de 500.000 partos domiciliares ou hospitalares planejados em gestantes de baixo risco, no qual não se verificou diferença significativa no risco de morte fetal intraparto, morte neonatal precoce e admissão em unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal (4).
Interrompendo temporariamente nossa série de artigos sobre Parto Normal vs. Cesárea (5-7), voltamos agora a abordar este tema, que recentemente retoma a atenção da mídia despertando intensa polêmica, depois da publicação de matéria online no site da maior revista de atualidades brasileira, com o título sensacionalista “Parto domiciliar: quando o risco não é necessário” (8). Depois de publicar uma controvertida matéria sobre os milagrosos efeitos de uma medicação antiobesidade (9) que não é aceita pela comunidade científica com esta finalidade (10,11) a revista volta a fazer incursões na área de saúde, mas desta vez em paz com os “conselhos de medicina”, ao alertar que o parto domiciliar estaria expondo mulheres e crianças a “complicações que podem ser graves” (8).
À parte considerações puramente semânticas às quais não iremos nos ater, a matéria presta um desserviço à população com suas afirmações categóricas e sem embasamento científico, em que se confundem mau jornalismo e julgamentos apressados, além de um amontoado de lugares-comuns, como exemplificado no seguinte trecho do primeiro parágrafo: “Depois da revolução pela qual a medicina passou no século 20, hospitais tornaram-se lugares mais seguros e indicados não só para tratamento de doentes, como para o nascimento de crianças. É regra que, dadas as condições, não faz mais sentido realizar um parto dentro casa, sujeito a problemas com consequências potencialmente desastrosas que poderiam ser resolvidas em um hospital. Regra, no entanto, que algumas mulheres moradoras de grandes centros urbanos, com todas as condições de usufruir desses avanços da medicina, questionam e ignoram. Essas mulheres defendem o parto à moda antiga, dentro de casa.”(8)
Ora, quem ditou essa regra que as transgressoras “moradoras de grandes centros urbanos” resolvem agora “questionar e ignorar”, defendendo o “parto à moda antiga”? Por que a revista afirma que hospitais são os “lugares mais seguros e indicados não só para tratamento de doentes, como para o nascimento de crianças”? Por que os representantes de conselhos e sociedades batem tanto na tecla de “riscos eminentes”? Seriam os riscos tão importantes assim ou foi somente um erro de grafia? E finalmente, quais são as reais implicações do artigo publicado por Joseph Wax (12) no “conceituado periódico médico internacional”, o American Journal of Obstetrics and Gynecology (AJOG)?
Vamos por partes. Primeiro, é fato que houve grandes avanços na Medicina durante o século XX e que, por conta destes avanços, verificou-se notável queda da mortalidade materna e perinatal. Em decorrência da antissepsia e da descoberta de antibióticos, a par da introdução das modernas técnicas anestésicas, tornou-se mais seguro realizar uma cesariana, e é fato inconteste que uma cesariana bem indicada é salvadora (13,14). Transfusão sanguínea, uso de antibióticos, prevenção e tratamento das convulsões com sulfato de magnésio, todas essas tecnologias bem empregadas levaram à redução das mortes maternas por hemorragia, infecção e hipertensão e são estratégias que devem estar facilmente disponíveis nos serviços de saúde para as situações de alto risco (15). No entanto, taxas de cesariana superiores a 15%-20% não resultam em redução das complicações e da mortalidade materna e neonatal e, ao contrário, podem estar associadas a resultados prejudiciais tanto para a mãe como para o concepto (16-18).
Por outro lado, o processo de hospitalização do parto, coincidindo com esses avanços, gerou infelizmente uma elaborada proliferação de ritos e rituais em torno deste evento fisiológico, como alerta Robbie Davis-Floyd em seu instigante livro “Birth as an American Rite of Passage”(19). Esses ritos e rituais adotados pelo modelo tecnocrático de assistência ao parto vigente no mundo ocidental foram introduzidos sem evidências científicas corroborando sua efetividade e vieram como “respostas ao medo exagerado deste processo natural do qual depende a continuidade de nossa existência” (19). Como resultado, intervenções e procedimentos desnecessários como episiotomia (corte no períneo), raspagem dos pelos, lavagem intestinal, uso rotineiro de ocitocina para acelerar o trabalho de parto e cesarianas sem indicação foram progressivamente incorporados à prática médica e ainda seguem sendo realizados como rotina em muitos hospitais brasileiros. De fato, cada parturiente internada em hospital passa a ser vista como “paciente” e submetida, portanto, às “regras” desse hospital para todos os “doentes”(20) .
Foi contra essa medicalização excessiva de um processo fisiológico que os movimentos de contracultura se voltaram nos anos 1960 e 1970, e foi como consequência da pressão desses movimentos que se começou a estudar a real necessidade, segurança e efetividade de muitos dos procedimentos estabelecidos como rotina na prática obstétrica diária (21). O novo paradigma da “Saúde Baseada em Evidências” , iniciando-se na Medicina e avançando progressivamente para outras áreas que passam a se integrar em uma perspectiva transdisciplinar, tem seus pilares na década de 1970 e 1980 exatamente na Saúde Materno-Infantil (22), como resposta aos questionamentos sobre o complexo emaranhado de rituais desnecessários permeando a assistência obstétrica e neonatal (19-22).
O movimento de retorno ao que se chama “parto à moda antiga” não é novo nem representa um modismo, e tampouco pretende abdicar do que a tecnologia tem de positivo e atraente, uma vez que intervenções necessárias são bem vindas. Todos os sistemas de saúde que facultam a opção de partos domiciliares como alternativa para as mulheres que assim o desejam contam com sistemas de classificação de risco e disponibilizam não apenas parteiras treinadas como um bom sistema de transferência e transporte, embora não seja verdade que uma ambulância ou UTI móvel fique à porta desses domicílios (2-4). A Organização Mundial de Saúde reconhece como profissionais habilitados para prestar assistência ao parto tanto médicos como enfermeiras-obstetras e parteiras (23) e recomenda que as mulheres podem escolher ter seus partos em casa se elas têm gestações de baixo-risco, recebem o nível apropriado de cuidado e formulam planos de contingência para transferência para uma unidade de saúde devidamente equipada se surgem problemas durante o parto (24,25). Por sua vez, a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras (FIGO) recomenda que "uma mulher deve dar à luz num local onde se sinta segura, e no nível mais periférico onde a assistência adequada for viável e segura” (26). Tanto o American College of Nurse Midwives(27) como a American Public Health Association(28), o Royal College of Midwives (RCM) e o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) apoiam o parto domiciliar para mulheres com gestações não complicadas. De acordo com a diretriz do RCM e do RCOG, “não há motivos para que o parto domiciliar não seja oferecido a mulheres de baixo risco, uma vez que pode conferir consideráveis benefícios para estas e suas famílias” (29).
O que há de novo nos últimos anos é que o tema passou a ter maior visibilidade no Brasil, não somente com a divulgação dos partos domiciliares de algumas celebridades, mas principalmente com o constante debate nas redes sociais, permitindo que as mulheres compartilhassem suas experiências de parto, domiciliar ou hospitalar, e pudessem compará-las. Tornou-se bastante evidente que havia uma parcela crescente de mulheres insatisfeitas com o atual modelo de assistência obstétrica em nosso país, excessivamente tecnocrático e caracterizado por um lado pelas taxas de cesárea inaceitavelmente elevadas no setor privado e, por outro, pelos partos traumáticos e com excesso de intervenções no Sistema Público de Saúde. Apesar da política de Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento preconizada pelo Ministério da Saúde no Brasil (30), é fato que o modelo atual, hospitalocêntrico e medicalocêntrico, não permite ainda à maior parte das usuárias ter uma assistência ao parto humanizada e segura. Vivemos ainda em um país onde, "quando não se corta por cima, se corta por baixo", como bem definem Diniz e Chachan, referindo-se às cesáreas e episiotomias desnecessárias (31).
Para completar, uma em cada quatro mulheres brasileiras internadas para assistência ao parto em hospitais públicos ou privados relata ter sofrido violência institucional, traduzida por qualquer forma de agressão perpetrada pelos profissionais de saúde que lhe prestam atendimento. Essas agressões não envolvem apenas o uso de procedimentos, técnicas e exames dolorosos e desnecessários, mas até “ironias, gritos e tratamentos grosseiros com viés discriminatório quanto a classe social ou cor da pele” (32). A violência institucional durante o parto pode assumir múltiplas facetas e representa um problema internacionalmente reconhecido (33). Em diversos hospitais ainda não se permite a presença do acompanhante, mesmo com a Lei 11.108 estabelecendo a obrigatoriedade de tanto hospitais públicos como privados permitirem a presença, junto à parturiente, de um acompanhante durante todo o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato (34).
Em contrapartida, com o crescente acesso à informação e a divulgação da realidade nua e crua do modelo de assistência obstétrica vigente no Brasil, diversas mulheres desejando uma assistência humanizada e segura para os seus partos puderam identificar outros modelos possíveis, já implementados e funcionando a contento em outros países, além de tomar conhecimento das evidências científicas comprovando efetividade e segurança dessas alternativas. Um exemplo é o modelo de assistência obstétrica conduzida por obstetrizes ou parteiras, cujos benefícios foram amplamente demonstrados em uma revisão sistemática da Biblioteca Cochrane: aqui nos referimos àquelas profissionais que fazem curso superior de Obstetrícia, as midwives em língua inglesa, sage-femmes na literatura francesa ou ainda comadronas em espanhol (35).
Essas mulheres, empoderadas e confiantes, não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos e outros países em que ainda predomina o modelo tecnocrático de assistência ao parto, começaram a buscar profissionais, médicos, enfermeiras-obstetras ou parteiras, que se dispusessem a auxiliá-las nesta jornada rumo a um parto respeitoso, humanizado e seguro. Essas mulheres se deram conta de que parir em suas residências era uma alternativa possível e não apenas luxo, modismo ou excentricidade de famosas. Essas mulheres pesquisaram, leram e estudaram as evidências, e conseguiram encontrar como parceiros os profissionais que também vinham trilhando sua própria jornada transformadora(36), profissionais que se respaldavam no novo e desafiante paradigma da Saúde Baseada em Evidências e buscavam, portanto, modelos de assistência ao parto que funcionassem sob esta perspectiva ecológica e sustentável (37).
Desta forma, verificou-se um aumento do número de partos domiciliares assistidos no Brasil e nos EUA (38-40) e, embora não disponhamos ainda de estatísticas confiáveis sobre o percentual de partos domiciliares planejados em nosso país, sabe-se que nas grandes cidades equipes transdisciplinares vêm se formando e atuando para prestar assistência a esses partos. Depoimentos de mulheres até então anônimas estão disponíveis em blogs e redes sociais. Grupos e comunidades sobre Parto Domiciliar discutem abertamente este tema. Twitter, Orkut e Facebook permitiram a milhares de mulheres trocar informações e partilhar experiências. O tema é palpitante, a discussão está no ar e, como se trata de remar contra a corrente, não é de se admirar que o establishment médico reaja e conselhos e entidades de classe comecem a se manifestar, em geral com posição contrária à prática. Esta reação era previsível, assim transcorrem as revoluções científicas, assim se procedem as mudanças de paradigma: o modelo atual, embora falido e não sustentável em longo prazo, permite ainda a muitos profissionais soluções cômodas a que estes se aferram, de dentro de sua zona de conforto, como a praticidade e a conveniência de programar cesarianas eletivas sem indicação médica definida. Curiosamente, são estes os mesmos profissionais que defendem o "direito" da mulher de escolher sua via de parto, embora aparentemente este direito tenha mão única, só valha para a minoria de mulheres que desejam uma cesariana (6) e não inclua aquelas que desejam um parto normal nem tampouco se estenda para a decisão sobre o local de parto. A voz das mulheres e o seu direito de escolha têm sido grandemente ignorados (39,41).
Não é, portanto, surpreendente a publicação de uma matéria sobre este tema na citada revista de atualidades. Infelizmente, como sói acontecer com as matérias de interesse à saúde publicadas na referida revista, esta é tendenciosa, parcial e não considera ou interpreta equivocadamente as evidências científicas pertinentes. O próprio posicionamento do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) é apresentado de forma incorreta, porque em sua última diretriz esta sociedade, conquanto explicite que considera hospitais e centros de parto normal mais seguros, reconhece o DIREITO das mulheres de escolher o local do parto. Citando literalmente o resumo da diretriz, publicada em fevereiro de 2011: “Embora o Comitê de Prática Obstétrica acredite que os hospitais e centros de parto normal sejam os locais mais seguros para o nascimento, ele respeita o direito de uma mulher de tomar uma decisão medicamente informada sobre o parto. Mulheres questionando sobre o parto domiciliar planejado deveriam ser informadas sobre os seus riscos e benefícios baseados nas recentes evidências. Especificamente, elas deveriam ser informadas que embora o risco absoluto possa ser baixo, o parto domiciliar planejado está associado com um risco duas a três vezes maior de morte neonatal quando comparado com o parto hospitalar planejado. É importante que as mulheres devam ser informadas que a adequada seleção de candidatas para o parto domiciliar; a disponibilidade de enfermeiras-obstetras ou parteiras certificadas, ou médicos atuando dentro de um sistema de saúde integrado e regulado; o pronto acesso à consulta; e a garantia de transporte seguro e rápido para os hospitais mais próximos são críticos para reduzir as taxas de mortalidade perinatal e obter desfechos favoráveis do parto domiciliar.” (42)
Interessante é que há cerca de seis meses, outra revista de atualidades, esta internacional, publicou matéria sobre o parto domiciliar: no número de 31 de março de 2011, “The Economist” aborda o tema em uma bela reportagem, exemplo de bom jornalismo. Com o título “Não há nenhum lugar como o lar?” e o subtítulo “O lugar onde as mulheres dão à luz é um assunto controverso no mundo rico”, a matéria prima pelo senso crítico, pelo rigor investigativo e pela isenção, apresentando prós e contras e discutindo o mesmo estudo citado pela revista brasileira, porém com destaque às críticas que este suscitou na comunidade científica. Ao final, em vez de fazer terrorismo contra o parto domiciliar e decretar qual o melhor local de parto para todas as mulheres, uma reflexão importante: “Como em muitos outros aspectos da criação dos filhos, o nascimento ao final irá depender da escolha dos pais – se preferem as luzes brilhantes e a abundância de métodos analgésicos de um hospital ou os confortos familiares do lar.”(43)
Em relação ao estudo citado como evidência dos riscos dos partos domiciliares, no qual o ACOG se apoia para desaconselhar o parto domiciliar, trata-se de uma revisão sistemática com metanálise (12) que tem sido extremamente criticada dentro da comunidade científica, por diversos vieses e erros metodológicos e estatísticos (44-49). Não se trata de um estudo original nem tampouco inclui ensaios clínicos randomizados, apenas estudos observacionais que foram mal interpretados e incluídos ou excluídos arbitrariamente pelos autores nas análises dos desfechos considerados de interesse (49). Esta metanálise tem sido amplamente divulgada como "prova" dos riscos perinatais decorrentes de partos domiciliares e constitui a base para as recomendações do ACOG em relação às informações que devem ser apresentadas como o “estado da arte” das atuais pesquisas sobre parto domiciliar (50). Portanto, iremos discuti-la com maiores detalhes, apresentando uma síntese dos seus resultados e das críticas já publicadas nas revistas científicas internacionais, motivando até mesmo a publicação de uma errata reconhecendo erros na análise estatística(51).
A revisão sistemática de Wax e colaboradores foi apresentada inicialmente no 30º. Encontro Anual da Sociedade de Medicina Materno-Infantil de Chicago em fevereiro de 2010, publicada online no American Journal of Obstetrics and Gynecology em julho de 2010 e na versão impressa em setembro do mesmo ano (12). A metanálise incluiu 12 estudos originais e um total de 342.056 partos domiciliares e 207.551 partos hospitalares planejados. No resumo do artigo, os autores concluem que os partos domiciliares planejados se associam com menor risco de intervenções maternas, incluindo analgesia peridural, monitoração eletrônica fetal, episiotomia, parto operatório, além de menor frequência de lacerações, hemorragia e infecções. Dentre os desfechos neonatais dos partos domiciliares planejados, verificou-se menor taxa de prematuridade, baixo peso ao nascer e necessidade de ventilação assistida. No entanto, apesar de as taxas de mortalidade perinatal serem semelhantes entre partos domiciliares e partos hospitalares, os partos domiciliares se associaram com aumento de cerca de três vezes das taxas de mortalidade neonatal.
O artigo em questão gerou intensa polêmica na comunidade científica internacional, seguindo-se diversas cartas publicadas em sequência no próprio AJOG (44,46,47,52), das quais uma tem o provocativo título “Parto domiciliar triplica a taxa de morte neonatal: comunicação pública ou má ciência?” (45). Diante de todas as críticas, o AJOG resolveu investigar o estudo em questão, e a revisão pós-publicação de fato encontrou erros na análise original, embora não tenha alterado suas conclusões (51). A própria Nature se interessou pela questão, porém mesmo solicitando diversas vezes que tanto Wax como o ACOG comentassem os problemas apontados por vários especialistas, estes declinaram o convite (53). A Elsevier, editora que publica a revista, reconhece os erros, mas não acredita que estes possam motivar uma retratação (54).
Tentando resumir a enorme quantidade de críticas feitas à metanálise de Wax, podemos afirmar que, à diferença das revisões sistemáticas da Cochrane, esta não seguiu as diretrizes estabelecidas internacionalmente para condução e publicação de metanálise, como o PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) (55) ou o MOOSE (Meta-Analyses and Systematic Reviews of Observational Studies)(56). Diversos erros estatísticos foram cometidos, até porque os autores utilizaram uma calculadora para a metanálise que apresenta vários problemas, resultando em Odds Ratio e intervalos de confiança incorretos, o que foi reconhecido pelo próprio autor do programa (49). No entanto, o principal erro enviesando a análise não foi estatístico, e sim um viés de seleção dos estudos, porque os autores da metanálise excluíram o grande estudo de coorte holandês (4) do cálculo do risco de morte neonatal, embora o tenham incluído no cálculo do risco de morte perinatal. Na verdade, os dados da metanálise são contraditórios em relação à morte neonatal e perinatal basicamente porque os autores definiram morte perinatal como morte fetal depois de 20 semanas ou a morte de um recém-nascido vivo nos primeiros 28 dias de vida, em vez de nos primeiros sete dias de vida, como é a recomendação internacional! (57) Por outro lado, outros estudos usados para calcular o risco de morte neonatal foram incorretamente incluídos e outros que poderiam ter sido incluídos para o cálculo de morte perinatal foram excluídos, por razões que não ficam bem claras. Os dados utilizados para o cálculo de morte neonatal incluíram partos que não tinham sido assistidos por parteiras ou enfermeiras-obstetras certificadas, o que já se demonstrou ser fator importante para redução dos riscos (49). Mesmo revisando os dados e apresentando os gráficos em uma publicação ulterior na revista com os novos números calculados corretamente (51), isto não resolve os sérios problemas metodológicos pertinentes à definição de termos e critérios de inclusão e exclusão (49).
Em suma, como refere Keirse em seu brilhante artigo publicado na Birth em Dezembro de 2010 (“Home Birth: Gone Away, Gone Astray, and Here To Stay”) “combinar estudos de parto domiciliar e hospitalar, sem diferenciar o que está dentro deles, onde eles estão e o que os circunda, é semelhante a produzir uma salada de frutas com batatas, abacaxi e salsão”. (48)
O debate em torno do parto domiciliar, não apenas no Brasil mas em todo o mundo, tem se tornado extremamente polarizado e politizado (48), de forma que nós não esperamos que essas críticas resolvam a polêmica. De fato, pode ser difícil gerar recomendações fortes com base em evidências fracas, oriundas de estudos observacionais, mas o mínimo que profissionais e sociedades deveriam reconhecer é que também não dispomos de evidências fortes corroborando a segurança do parto hospitalar para parturientes de baixo risco e seus neonatos. O desenho de estudo ideal para avaliar uma prática ou intervenção é um ensaio clínico randomizado, e metanálises de estudos observacionais, mesmo quando bem conduzidas e sem erros grosseiros como os encontrados na metanálise de Wax e colaboradores, não têm o mesmo poder das revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados, como aquelas incluídas na Biblioteca Cochrane.
No entanto, randomizar mulheres para parto domiciliar ou hospitalar é virtualmente impossível: de acordo com Keirse, essas mulheres para quem “tanto faz” parir em casa como no hospital seriam tão raras quanto elefantes brancos (48), mas mesmo que estas mulheres fossem encontradas, dificilmente as conclusões de um ensaio clínico randomizado com esta amostra poderiam ser extrapoladas para mulheres diferentes em situações e contextos clínicos diferentes. Mulheres que DESEJAM ter seus bebês em casa diferem substancialmente daquelas que escolhem um parto hospitalar, da mesma forma que os profissionais que prestam assistência a partos domiciliares ou exclusivamente a partos hospitalares também são bastante diferentes entre si (48).
Dentro do novo paradigma da Pesquisa Translacional, entretanto, em se considerando a implementação de soluções na “vida real”, dentro de uma perspectiva de sustentabilidade e em um modelo de atenção centrado no usuário, é forçoso reconhecer que outros estudos além dos ensaios clínicos randomizados são necessários, o que desafia a hierarquia tradicional da qualidade dos estudos (58). Em um ambiente acadêmico tradicionalmente dominado pelos ensaios clínicos randomizados, desponta a importância de outras abordagens tipológicas não hierárquicas (59). Identificar necessidades, aceitabilidade, efetividade e desenvolver soluções sustentáveis, eis o desafio da pesquisa em Saúde para o século XXI.
Na prática, devemos considerar que tanto gestantes como profissionais de saúde têm sempre o mesmo e primaz objetivo de garantir uma experiência de parto satisfatória, com mãe e bebê saudáveis. Por outro lado, é um direito reprodutivo básico para as mulheres poder escolher como e onde irão dar à luz (60,61). Essa escolha deve ser informada pelas melhores evidências correntemente disponíveis, e essas evidências sugerem, sem se considerar a metanálise equivocada de Wax, que o parto domiciliar é uma opção segura para as parturientes de baixo risco atendidas por profissionais qualificados. Como vantagens em relação ao parto hospitalar se destacam a menor frequência de intervenções para a mãe e o conforto e a satisfação das usuárias, que vivenciam uma experiência única e transformadora em seu próprio lar (37,39,40) As taxas de mortalidade perinatal e neonatal são semelhantes àquelas observadas em partos hospitalares de baixo risco (2-4). No entanto, a decisão final deve se basear tanto nas evidências como nas características e expectativas das gestantes, bem como na experiência e qualificação dos prestadores e nas facilidades de acesso aos serviços de saúde (25,26,28,29).
Mais importante do que criticar as mulheres que escolhem ter um parto domiciliar e condená-las por estarem transgredindo uma “regra” imaginária é discutir e implementar estratégias para aumentar a segurança e a satisfação das usuárias em TODOS os partos (48). Isto inclui tanto melhorar e humanizar a atenção hospitalar no sentido de que os partos assistidos em maternidades ou centros de parto normal possam representar uma experiência gratificante para as mulheres, como estabelecer diretrizes para a seleção adequada das candidatas ao parto domiciliar.
Fotografia: Ana Cristina Duarte
Agradecimentos: Ana Cristina Duarte, Roxana Knobel, Carla Andreucci Polido e Roselene de Araújo, pelos comentários e sugestões; Ana Paula Caldas, por ter cedido a foto e pelo exemplo inspirador.
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Esta página foi publicada em: 27/09/2011.

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Estreptococus Grupo B (EGB): o que você precisa saber


Estreptococus Grupo B (EGB): o que você precisa saber
por Ana Cristina Duarte, quarta, 5 de outubro de 2011 às 17:38


Costuma-se dizer que as preocupações em relação ao Strepto B estão ligadas a dois grupos com alto risco de infecção:
1. Bebês prematuros (menos de 37 semanas de gestação)
2. Bebês no útero com bolsa rota há mais de 18 horas
Contrações podem ser um possível indicador de infecção, mas isso é preocupante da primeira à 36ª semana. Depois disso, as contrações de Braxton-Hicks são normais e um bom indício de um útero saudável e tonificado, pronto para empurrar o bebê.
A presença de Strepto B na vagina identificada através de cultura não está necessariamente ligada a um quadro de doença. Assim como temos bactérias Strepto A nas nossas gargantas e não apresentamos sintomas de dor de garganta, de um dia para outro podemos ter uma cultura positiva para Strepto B sem sintomas ou riscos para nossos bebês no útero. Essa é a razão porque muitos profissionais de saúde se recusam a realizar o teste e preferem esperar para realizá-lo somente diante de um dos cenários listados acima, nos quais a criança está “em risco”. Uma mulher pode obter resultado positivo em um dia e negativo em outro. O tratamento com antibióticos antes do trabalho de parto NÃO é recomendado. Por quê?
Porque o corpo da mulher pode desenvolver resistência ao antibiótico, assim como o bebê. Assim, se um dos dois tiver uma infecção mais severa após o nascimento, os antibióticos podem se mostrar ineficazes.
Tomá-los também pode levar a candidíase, leveduras vaginais e cólicas agudas nos meses pós-parto. Há alguns indícios de que o uso de antibióticos pode levar à deficiência de vitamina K na criança.
Recomendo que mulheres grávidas façam tudo que for possível para minimizar seu risco de apresentar QUALQUER infecção e reforçar seu sistema imunológico. Algumas sugestões seguras:
1. Eleve a quantidade de vitamina C na sua dieta – por exemplo, frutas como laranja, acerola e goiaba são ricas nessa vitamina. Outras boas fontes são pimentões vermelhos e kiwi.
2. Tome uma xícara de chá de equinácea ou duas cápsulas de equinácea ao dia.
3. Durma por mais tempo antes de meia-noite. Mantenha uma agenda mais leve.
4. Tome uma colher de chá de prata coloidal diariamente, entre refeições. Mantenha o líquido em sua boca por alguns minutos antes de engoli-lo. A prata coloidal pode ser comprada pela Internet. São partículas de prata suspensas em água. Trata-se de um antibiótico natural e seguro na gravidez, com o limite de 3 colheres de chá/dia. Não ingira doses superiores a essa, sob risco de ficar com sua pele azulada por overdose.
5. Planeje com antecedência o uso de fontes adicionais de aquecimento para a mãe e o bebê após o parto. Bolsas de água quente, almofadas aquecidas, toalhas quentes e similares ajudam a manter mãe e bebê aquecidos após o parto, reduzindo o stress. Encarregue um amigo ou membro da família de providenciar o aquecimento para vocês. O colostro é o melhor antibiótico que o bebê pode receber.
6. Outras boas dicas de prevenção: evite exames vaginais ao máximo – se possível, não faça nenhum. Não permita o descolamento de membranas para induzir o parto. Não permita o rompimento artificial das membranas. Não deixe que crianças de outras famílias visitem o recém-nascido nas primeiras três semanas. Cuida da saúde das crianças mais velhas para que elas não estejam espirrando e tossindo perto do bebê.
Imagino com frequência que deve ter havido um monte de mulheres com Strepto B positivo entre os mais de mil partos que já acompanhei. Não realizamos testes a menos que haja bolsa rota por um longo período ou prematuridade. Depois que o bebê nasce, mantemos as mulheres aquecidas e em contato pele-a-pele com o bebê, com o cordão intacto e, claro, todas as mães amamentam. Nunca vi um bebê contaminado por Strepto B em 30 anos de profissão. Infelizmente, o uso de antibióticos de alta dosagem em muitas mulheres grávidas levou a um aumento nas mortes de bebês por E. coli. * 
Evite o diagnóstico de Strepto B positivo: Se o profissional de saúde pedir que você faça o teste de Strepto B por uma questão de protocolo, leia este artigo escrito por uma obstetriz certificada sobre o uso de alho na vagina para combater bactérias. Faça o tratamento antes de realizar o exame.


Por Gloria Lemay
Tradução de Jamila Maia

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